Citações Famosas
"Não há alegria pública que valha uma boa alegria particular."— Machado de Assis
"Não há nada mais tenaz que um bom ódio."— Machado de Assis
"Uma coisa é citar versos, outra é crer neles."— Machado de Assis
Perguntas Frequentes
Memorial de Aires narra, em forma de diário, os anos de 1888 e 1889 vistos pelo Conselheiro Aires — diplomata aposentado, culto e irônico, que regressa ao Rio de Janeiro após longa carreira na Europa. Ao redor dele gravitam três figuras centrais: Fidélia, jovem viúva de beleza discreta que hesita entre a fidelidade ao marido morto e uma nova vida; o casal Aguiar, unidos por amor profundo e sem filhos, que projetam nos jovens o afeto que não puderam dar aos próprios herdeiros; e Tristão, português que chega ao Brasil e altera, silenciosamente, o equilíbrio afetivo de todos. No horizonte, a Abolição da Escravatura e a Proclamação da República passam quase sem alarde — o romance prefere a intimidade ao ruído da História. É o livro mais melancólico e pessoal de Machado de Assis, escrito no mesmo ano de sua morte.
Memorial de Aires é considerado o mais pessoal de Machado de Assis por reunir, de forma única, traços autobiográficos que o autor nunca tornara tão evidentes em sua ficção. Machado o escreveu viúvo — Carolina, sua esposa e companheira de 35 anos, havia morrido em 1904 —, adoentado e consciente de que seria sua última obra. O Conselheiro Aires, narrador e protagonista, é um homem idoso e solitário que observa a vida dos outros com afeto distante e ironia melancólica — um espelho da condição do próprio autor. O tom intimista e contemplativo do livro, sem o sarcasmo feroz dos romances anteriores, reforça essa leitura: é como se Machado tivesse baixado a guarda pela última vez. Ele mesmo confessou em carta a Joaquim Nabuco que seria, se houvesse tempo, certamente o seu último livro.
Memorial de Aires se distingue dos outros romances de Machado de Assis por pelo menos três aspectos fundamentais. Primeiro, a estrutura: é o único romance do autor inteiramente organizado como diário, com entradas datadas que criam uma ilusão de documento real e não de ficção construída. Segundo, o tom: ao contrário das obras da fase madura — Memórias Póstumas de Brás Cubas, Dom Casmurro, Quincas Borba —, não há sarcasmo corrosivo nem ironia destrutiva; o registro é de melancolia serena e contemplação afável. Terceiro, o tratamento da História: os eventos mais dramáticos de 1888-1889 — a Abolição e a República — aparecem quase de passagem, subordinados às pequenas narrativas do cotidiano íntimo. O crítico Alfredo Bosi definiu bem: o Conselheiro Aires 'ouve mais do que fala', e esse silêncio eloquente é a marca mais singular do livro.
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