Fernando Pessoa
Fernando Pessoa: O Guardião dos Heterônimos Fernando António Nogueira Pessoa nasceu em 13 de junho de 1888, em Lisboa, filho de Joaquim de Seabra Pessoa, funcionário público e músico amador, e de Maria Madalena Pinheiro Nogueira. Com apenas cinco anos, perdeu o pai para a tuberculose. A mãe casou-se novamente com o cônsul português na África do Sul, e o menino seguiu para Durban em 1895. Foi lá, em terra estrangeira, que aprendeu inglês com perfeição, leu vorazmente os clássicos da literatura britânica e começou a escrever seus primeiros versos. Essa dupla pertença cultural — português por nascimento, inglês por formação — marcaria para sempre sua sensibilidade dividida. Regressou a Lisboa em 1905, aos dezassete anos, e nunca mais saiu de Portugal. Inscreveu-se no Curso Superior de Letras, mas abandonou os estudos. Ganhava a vida como tradutor comercial e correspondente estrangeiro em casas comerciais da Baixa lisboeta, uma existência modesta e rotineira que contrastava violentamente com a intensidade de sua vida interior. Nos cafés do Chiado e da Baixa, especialmente no célebre Martinho da Arcada, conviveu com o grupo do Orpheu, onde publicou alguns de seus textos mais ousados. Era um homem discreto, de óculos redondos e modos reservados, que passava quase despercebido entre os frequentadores. A grandeza de Pessoa reside, sobretudo, na criação de um universo literário povoado por heterônimos — personalidades poéticas completas, com biografias, estilos, filosofias e até aparências físicas distintas. Alberto Caeiro, o mestre simples e pagão; Ricardo Reis, o classicista epicurista; Álvaro de Campos, o futurista sensacionista e angustiado; e o semi-heterônimo Bernardo Soares, autor do Livro do Desassossego, talvez sua obra mais profunda. Esses “outros” não eram mero recurso literário: eram formas de sentir o mundo de maneira múltipla, fragmentada e completa ao mesmo tempo. “Eu sou uma antologia viva”, dizia. Em vida, publicou pouco em livro. O principal volume que viu impresso foi Mensagem (1934), um poema épico-nacional de rara densidade simbólica, que obteve o segundo lugar no Prémio Antero de Quental. A maior parte de sua produção — milhares de páginas em prosa e verso — permaneceu inédita, guardada no famoso “baú” encontrado após sua morte. Escrevia em português, inglês e francês, alternando com naturalidade entre gêneros e vozes. Fernando Pessoa faleceu em 30 de novembro de 1935, aos 47 anos, no Hospital de São Luís dos Franceses, em Lisboa. Sua última frase, escrita em inglês no leito de morte, permanece célebre: “I know not what tomorrow will bring”. A cirrose hepática, agravada pelo hábito de beber, encerrou prematuramente uma das mentes mais complexas do século XX. A publicação póstuma de sua obra, iniciada com o Livro do Desassossego em 1982, revelou ao mundo a magnitude de seu gênio. Hoje, Pessoa é considerado um dos maiores poetas da modernidade, um precursor da fragmentação e da multiplicidade que definiriam o século. Em sua escrita, o eu dissolve-se, multiplica-se e questiona-se incessantemente. Não buscou a unidade, mas a sinceridade das contradições.